Onde foi parar a liberdade de rir?
O humor brasileiro, conhecido por sua irreverência e capacidade de satirizar o cotidiano, vive um momento de transformação. Em 2026, a geração de humoristas que bombou nos anos 2010 enfrenta uma plateia cada vez mais atenta e exigente. O que antes era motivo de risada hoje pode virar caso de polícia ou cancelamento nas redes sociais.
Nomes como Fábio Porchat, Marcelo Adnet e Danilo Gentili relatam que o maior desafio é navegar entre o humor ácido e a necessidade de não ofender minorias. Em entrevista recente, Porchat destacou que o humor evoluiu: ‘Não dá mais para fazer piada sobre qualquer assunto sem contexto. A gente precisa pensar duas vezes antes de soltar uma piada sobre religião ou gênero’.
Já Gentili, conhecido por seu estilo mais provocador, admite que precisou adaptar seu repertório: ‘O público mudou. Antes eu podia falar sobre qualquer coisa, hoje se você não tomar cuidado, perde patrocinador e até emprego’.
O cenário não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, comediantes como Dave Chappelle e Ricky Gervais também enfrentam críticas por piadas consideradas transfóbicas ou insensíveis. Mas no Brasil, a situação ganha contornos especiais devido à polarização política.
A humorista Nany People, uma das poucas trans no cenário nacional, afirma que o humor não pode ser desculpa para preconceito: ‘Sou a favor da liberdade de expressão, mas ela não pode servir de escudo para discurso de ódio. O riso não pode custar a dignidade de ninguém’.
Especialistas em comunicação apontam que o humor acompanha as transformações sociais. ‘O que é engraçado em 2026 é diferente do que era em 2006. Quem não se atualiza, fica para trás’, analisa o sociólogo Alberto Dines.
Para se adaptar, muitos humoristas investem em conteúdo mais reflexivo, como Gregorio Duvivier e seu grupo Porta dos Fundos, que mesclam sátira com crítica social. A produtora, aliás, foi alvo de ataques em 2019 por um especial de Natal que satirizava a religião, mas hoje é referência em como fazer humor sem perder a relevância.
No fim, a pergunta que fica é: até onde o humor pode ir sem ferir? A resposta, ao que parece, está em constante negociação entre artistas, público e plataformas.
